Aristarco
Aristarco de Samos (310 - 230 a.C.) viveu no reinado dos três primeiros Ptolomeus. Passou a maior parte da sua vida em Alexandria, foi professor no Museu e foi aí que publicou a maior parte das suas obras. Aristarco propôs para a explicação do universo um sistema heliocêntrico. Como relata Arquimedes em O Contador de Areias:
"Aristarco de Samos publicou um livro que consistia em algumas hipóteses cujas premissas conduzem ao resultado de que o Universo é muitas vezes maior do que aquilo a que agora se dá esse nome. As suas hipóteses são que as estrelas fixas e o Sol se mantêm imóveis, que a Terra gira em torno do Sol na circunferência de um círculo, com o Sol situado no meio da órbita, e que a esfera das estrelas fixas, situada aproximadamente com o mesmo centro que o Sol, é tão grande que o círculo em que ele supõe que a Terra gira está para a distância das estrelas fixas na mesma proporção que o centro da esfera está para a superfície."
Cit. in Sagan (1980: 193)
Esta ideia já tinha sido esboçada, ainda que rudimentarmente, por um peripatético chamado Heraclides de Ponto (séc. IV a. C.). No entanto, de acordo ainda com Arquimedes, a maioria dos astrónomos contemporâneos de Aristarco tê-la-á rejeitado. A hipótese era contrária à nova física aristotélica, segundo a qual o elemento mais pesado (neste caso, a Terra) só podia ocupar a posição central, contradizia a sensibilidade religiosa, segundo a qual a morada dos seres humanos tinha de coincidir com o centro do universo e contrastava com a doutrina astrológica aceite que se baseava numa referência geocêntrica.
Para além destes argumentos de ordem filosófica e religiosa (como podemos ler em Plutarco: "Cleantes, o estóico, considerava que Aristarco deveria ser acusado por ter proposto, por uma profanação sacrílega, deslocar o foco do Mundo", cit. in Couderc (1981: 24)) havia também fortes argumentos de ordem científica contra a sua hipótese. Tais argumentos podem ser encontrados em Aristóteles bem como num astrónomo tão eminente como Ptolomeu, que rejeita a rotação com um argumento de bom senso um pouco mais elaborado:
"Uma roda que roda possui uma força centrífuga tanto mais intensa quanto maior for a velocidade; se a Terra girasse em 24 horas como alguns tinham proposto, os pontos de seu equador girariam a uma velocidade fantástica e os seres, as casas, as pedras, as águas seriam lançadas nos ares; o próprio solo saltaria em estilhaços."
Cit in Couderc (1981: 23)
Outro argumento contrário à rotação da Terra à volta do Sol tinha por base o fenómeno da paralaxe das estrelas. Assim, o facto de a Terra se mover de um ponto para outro (por exemplo, do afélio para o periélio) implicaria uma mudança das posições relativas das estrelas, o que não era facilmente verificável. Para contornar esta dificuldade, Aristarco assume que a esfera celeste tem um raio tão grande que, em comparação, a órbita da Terra podia ser considerada um simples ponto.
A obra monumental em que Aristarco descreveu o seu sistema heliocêntrico perdeu-se. Resta apenas Da Grandeza e da Distância do Sol e da Lua, obra na qual, a partir de certas hipóteses derivadas da observação, Aristarco deduz as seguintes proposições:
1. A Terra está no centro da orbita lunar.
2. Quando a Lua apresenta exactamente uma metade iluminada, a sua distância ao Sol não é de um quadrante, mas de 29/30 de quadrante (87º)
3. A distância da Terra ao Sol é mais de 18 vezes mas menos de 20 vezes a distância da Terra à Lua.
4. A razão do diâmetro do Sol com o diâmetro da Terra é maior que 19/3 e menor que 43/6.
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Aristarco teve o mérito de conceber um sistema solar com o centro ocupado pelo Sol e no qual a Terra percorria uma orbita circular, como os outros planetas. Sabemos que não conseguiu convencer os astrónomos seus contemporâneos que não possuíam instrumentos capazes de determinar as paralaxes estrelares. É que, se a Terra se move, a posição das estrelas nas diferentes estações tinha de relevar alguma variação. Ninguém supunha, então, que o fenómeno pudesse ser imperceptível devido à enorme distância a que se encontravam as estrelas.
(in "Grandes Nomes da Cultura Alexandrina - Astronomia", http://www.educ.fc.ul.pt/docentes/opombo/hfe/momentos/museu/astronomia.htm)